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5/20/2013

Entrevista: Português cria modelo de cidade sustentável aplicável em "todo o planeta"


Rui Vasques, de 25 anos, idealizou cada pormenor da cidade em que gostaria de viver ao criar a Eco-Village Community, um projeto que lhe valou o Prémio Melhor Aluno de Curso IADE 2012 e que tem apresentado por todo o país. Para o jovem de sete ofícios - para além da conservação do ambiente, da construção e do design, também tem projetos nas áreas do desenho, música, desporto e juventude - "a maioria das pessoas está preparada para viver de uma maneira mais simples".

PER: Porque é que decidiu projetar a Eco-Village Community?
Rui Vasques: A Eco-Village Community nasceu no âmbito do meu Mestrado em Design de Produção quando realizava a tese-projeto sobre “Construções Sustentáveis”. Ao pesquisar sobre temas do meu interesse relacionados com quatro áreas de conhecimento - cultural, científica, experimental e logística - e que iam muito para além do Design. Abordei temas como ecologia, antropologia, sociologia, neurociência, arte, bioconstrução, marketing verde e ainda inúmeros filmes e documentários que me fizeram perceber a evolução do Homem no planeta e a sua conduta perfeitamente desajustada da natureza que observamos nas sociedades globais de hoje em dia.

A ideia inicial era começar por criar uma casa sustentável. Como é que evoluiu de uma casa para uma comunidade?
Através de uma metodologia avançada de projeto, das triangulações que relacionam os conteúdos e dos conceitos que fui desenvolvendo, surgiu a ideia de projetar um modelo social de raiz que respondesse aos problemas sociais, económicos e ambientais que abordei, apoiado pelo conhecimento e esperança depositada nesta nova era de transição para o desenvolvimento sustentável.

Como é que a comunidade seria autossustentável quanto a energias renováveis?
A comunidade utiliza energia solar, energia eólica, produção de biomassa e biocombustíveis, energia cinética e, se necessário, a energia geotérmica, dependendo das condições locais. A ideia é criar uma rede energética geral ligada a uma central elétrica de armazenamento, que gera energia através das tendas solares com células fotovoltaicas, candeeiros solares, painéis solares e ainda ventoinhas eólicas eficientes. Esta rede independente serve de apoio aos sistemas elétricos individuais de cada habitação/estrutura, assim como às sub-redes distribuidoras por zonas de moradores. Deste modo, cada bloco de habitações é autossuficiente e se necessário ou em caso de falha pode usufruir da energia armazenada da rede geral.

Como é que essas estruturas para a geração de energia renovável seriam incluídas no espaço físico da Eco-Village?
Para além das tendas e candeeiros solares já projetados, a comunidade inclui seis painéis solares por cada bloco de habitações, no total de 96 painéis solares distribuídos por oito estruturas de captação, uma por cada par de blocos da zona de habitação. Na parte central existem mais 24 painéis solares distribuídos em quatro estruturas de captação com seis painéis cada. As ventoinhas eólicas eficientes são dispostas no topo de cada habitação onde há maior aproveitamento dos ventos e para consumo próprio, num total de 60 sistemas de captação. A compostagem, produção de biomassa e biocombustíveis estão presentes em estruturas destinadas às respetivas funções, na zona exterior da comunidade relacionada com a produção de recursos. A energia cinética é aplicada a motores de movimento e no  equipamento urbano desportivo, máquinas de exercícios diversos que aproveitam a energia gerada pelo utilizador armazenando-a na rede central.

Este sistema é aplicável em qualquer parte do mundo?
Penso que este modelo se aplica a todo o planeta, desde que seja feito um estudo prévio das condições climatéricas e potencial energético do local, direcionando assim a utilização das energias renováveis para o local em questão e compensando a falta de um elemento com outro. A tecnologia de hoje permite-nos obter a energia da natureza em qualquer parte do planeta e das mais variadas formas possíveis.

O sistema criado permite o armazenamento ou venda de energia à rede?
Sim. Um dos objetivos é que a rede central possa disponibilizar uma parte excedente de energia para troca ou venda às comunidades vizinhas.

Pode descrever-me a técnica de construção das casas e de que forma é que a eficiência energética é tida em conta?
O Superadobe é uma técnica de construção a partir de sacos com terra criada por Nader Khalili que funciona em sinergia com a energia dos quatro elementos naturais: terra, água, ar e fogo. As suas principais vantagens são: rapidez e simplicidade de construção, extrema resistência física, excelente conforto térmico e acústico, baixo custo e mínimo impacto ecológico pela utilização de materiais locais. Esta técnica foi desenvolvida num simpósio com a N.A.S.A para estudar a viabilidade de construir na lua, com o mínimo material possível e máxima resistência, durabilidade e adaptação ao solo. Cada casa é energizada pela rede individual, que é alimentada pelas sub-redes locais e ainda apoiadas pela rede geral de armazenamento. São ainda aplicados sistemas de gestão e eficiência energética como por exemplo POM Power Guard Energy em cada estrutura. As estruturas estão pensadas para funcionar consoante os percursos do sol ao longo do ano, a frequência dos ventos e os lençóis freáticos existentes, rentabilizando ao máximo as condições de conforto e energia aproveitada.

Como é que é feita a mobilidade das pessoas nesta comunidade?
A minha intenção é que as pessoas se desloquem de bicicleta, porque o espaço não ultrapassa os 500 m de diâmetro e se for preciso levar cargas pesadas utilizam atrelados a veículos elétricos ou veículos movidos a energias não poluentes e/ou biocombustíveis. A maioria das pessoas nesta vila certamente que iria preferir andar a pé.

Essa comunidade está pensada para quantas pessoas?
O número médio de pessoas para este modelo social varia entre os 300 a 500  habitantes.

Que investimento exige a construção desta comunidade?
Neste momento estou a trabalhar no desenvolvimento mais aprofundado dos modelos de negócio possíveis para o projeto: a ideia da criação de um ecoresort sustentável e/ou de um centro de investigação para o desenvolvimento sustentável que reunisse todos os projetos dentro do âmbito em Portugal. O modelo está pensado para fechar o ciclo ao fim de um a dois anos e a partir desse momento tornar-se completamente autossuficiente em todas as vertentes, causando um impacto mínimo no meio e ecossistemas envolventes. Está também previsto o retorno de investimento financeiro, ao fim de três a cinco anos, dependendo da ideia de negócio, e também o retorno do consumo energético próprio comparando com o valor do investimento inicial. Muito ainda por alto, e arredondando para cima os valores de investimento, para pôr o modelo em funcionamento e dividindo por áreas são necessários 1,45 milhões, designadamente 600 mil em estruturas de Superadobe auto-suficientes, equipadas com tecnologia  e sistemas inteligente, 80 mil para vegetação, pavimento, construção e infraestruturas. 200 mil em energia, 50 mil em água, 30 mil em produção de recursos, 60 mil em equipamento e ainda 400 mil como margem de segurança.

Depois do lançamento deste projeto, já teve algum convite para aplicar esta comunidade sustentável?
Ainda não. Já percorro o país desde o início de 2012 pelos eventos relacionados com sustentabilidade e empreendedorismo (...). Já tive algumas propostas, ainda por alto, mas de aplicar algo com os mesmos conceitos e mais pequeno e nunca esta solução no seu todo. Creio que nesta fase de crise que atravessa o país é difícil arranjar um investidor português, mas ainda tenho esperança que possa vir a acontecer, porque também a crise é uma grande potenciadora de novas ideias, projetos inovadores e principalmente de mudança.

Tem ideia de começar por um  resort Eco-Village na região da Nazaré. Porque ali?
A Nazaré foi um dos locais escolhidos como proposta para testar este modelo na forma de um resort auto-sustentável, porque é um local relacionado com a comunidade nacional e estrangeira de surf, um desporto que tem crescido muito em Portugal e que começa a precisar de mais estruturas de apoio ao turismo relacionado com o mesmo. Este tipo de solução de linha orgânica, bioconstrução e amiga do ambiente encaixa perfeitamente no perfil e nas necessidades dos surfistas nacionais e internacionais que pretendam ter um sítio para repousar perto de um dos melhores locais do país para a prática do desporto.

Tem feito apresentações do projeto em Portugal ou no estrangeiro? Se sim, qual o feedback que tem recebido?
Tenho percorrido o país tentando inspirar as pessoas para uma visão mais sustentável do futuro e em busca de seguidores, parceiros, mentores e  pessoas que acreditem e queiram contribuir para o projeto. (...) Tenho recebido bastante feedback de pessoas experientes em diversas áreas, que muitas vezes me colocam questões semelhantes que acabo por responder da mesma maneira, ou seja, quando questionam uma parte do projeto muitas vezes tenho que responder com o "todo" porque tudo está interligado e funciona em sinergia. As principais discussões correntes são a adaptabilidade das culturas a este tipo de solução e se a maioria das pessoas está preparada para viver de uma maneira mais simples. Eu penso que sim, porque acredito que o homem é diretamente condicionado pelo meio que o envolve e, se este for sustentável, este irá adaptar-se ao meio para cooperar e poder sobreviver. Outras questões pertinentes são se existe alguma produção industrial de bens local, ao qual respondo que não e que tento evitar isso ao máximo porque o artesanato pode produzir todo o tipo de utensílios para suprir as funções relativas às necessidades básicas. Os restantes produtos tecnológicos e bens pessoais são adquiridos fora da comunidade. Também me questionam quanto ao sistema de organização, que explico já ter sido estudado e utilizado em muitos projetos urbanísticos por trazer muitas vantagens de otimização, assim como sobre os processos de produção de recursos ao qual respondo com temas como permacultura, estações aeropónicas e hidropónicas verticais, criação de gado, árvores de fruto e peixe em cativeiro, etc.

Saiba mais e veja fotografias sobre o projeto Eco-Village Community aqui.


PER


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