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EÓLICA
13/06/2013

Entrevista: Portugal precisa de leis para explorar “oportunidades” da eólica offshore


Após o sucesso do protótipo do primeiro projeto de energia eólica offshore do mundo, localizado ao largo da Póvoa de Varzim, que já produz energia para 2000 habitações, a EDP Inovação prepara-se agora para avançar com a fase pré-comercial, com um parque de cinco torres com uma capacidade de 26 megawatts. O protótipo custou 23 milhões de euros, com ajuda de fundos comunitários, mas na fase comercial a energia deverá ficar por menos de 100 euros por MWh.

João, Maciel, diretor de desenvolvimento tecnológico da EDP Inovação, defende que Portugal deve criar um enquadramento regulatório para o setor “mais cedo que tarde”, sob pena de no futuro a empresa procurar outros mercados e de Portugal perder oportunidades de exportação de material e know-how.

 

PER: O que é que distingue uma turbina em alto mar de uma turbina convencional?

João Maciel: Tirando o facto de ser uma turbina preparada para estar no mar, tem alguma proteção a nível de corrosão, etc., é uma turbina exatamente igual às que existem em terra. O que muda aqui é a maneira como se fixa essa turbina. No offshore, no mar, há basicamente duas tecnologias. Uma é baseada em fundações fixas ao fundo e hoje em dia os projetos  que existem de energia eólica offshore no norte da Europa são baseados nessa tecnologia (...) A partir dos 45 / 50 metros estamos a aproveitar as águas mais profundas e é ai que começa a fazer sentido utilizar as fundações flutuantes. É o caso da Windfloat.  Imagine que queria fazer um projeto com uma fundação fixa em águas muito profundas. Não conseguia. Tinha de fazer quase uma Torre Eiffel para chegar até lá abaixo. O desafio da engenharia e de custos seria enorme. O que acontece com as estruturas flutuantes é que, quando aumenta a profundidade, a plataforma é exatamente igual e só tem uma linha mais longa presa ao fundo. O aumento é muito marginal comparativo com o custo total do sistema.

 

Existe perigo de colocar esta estrutura em locais onde as ondas podem atingir dimensões muito grandes?

Não. O sistema é desenhado para o tipo de ondulação de marés onde vai ser instalado. Ali já tivemos ondas de 18 metros na altura e o sistema sobreviveu perfeitamente. Quando estamos a 17 / 18 metros, normalmente também está muito vento e a turbina já não está a funcionar, porque acima de 25 m/s pára por segurança, fica em modo de sobrevivência. Mas com 13 metros de altura, a turbina está a funcionar perfeitamente à sua potência nominal, que era o que tinha sido previsto. Essas são as duas principais conclusões que tirámos. Uma é a sobrevivência. O que tínhamos feito nos modelos em computador e matemáticos demonstrámos agora, no mundo real, ser verdade. E a segunda é o desempenho da turbina, que funcionou bem. A curva de potência da turbina está a ser basicamente igual à de uma turbina instalada em cima de uma fundação fixa. Ou seja, o fato de ser uma fundação flutuante e que tem algum movimento não afeta em nada o desempenho da turbina.

 

A manutenção deste sistema é mais complicada por estar em alto mar?

A manutenção vai ser muito parecida com a manutenção de outra tecnologia de eólica offshore. É verdade que o facto de nós termos de ir de barco e termos de estar condicionados por janelas meteorológicas para poder ir de barco e poder aceder coloca aqui alguns constrangimentos adicionais face a um projeto onshore. Mas a Windfloat nisso não é diferente de outra offshore qualquer. De qualquer modo, achamos que o que compensa isso é o facto de, por estarmos no mar e mais afastados da costa, deixarmos de ter um bocado a influência da costa e da burocracia toda na costa, e portanto o vento tem velocidade maior e é mais estável. À partida, hoje em dia esse excesso de energia que é produzido por estar no mar mais do que compensa o adicional que temos de custos para produção e manutenção.

 

E é durabilidade das turbinas é a mesma?

É a mesma. As turbinas são desenhadas para 20 / 25 anos de operação.

 

Quando é que vai surgir o parque eólico em São Pedro de Moel?

A localização de São Pedro de Moel ainda não é definitiva. É o nosso cenário-base. Estamos neste momento a avaliar um conjunto de aspetos, entre os quais o vento, a rede elétrica na costa, as ondas, os recursos marítimos, etc., para decidirmos a localização final. Essa fase pré-comercial está apontada para o segundo semestre de 2016, eventualmente para o primeiro semestre de 2017. É a melhor estimativa que tenho.

 

E depois dessa próxima fase, pretendem criar mais projetos aqui em Portugal?

Se tudo continuar a correr bem, como na fase de demonstração, haverá uma fase comercial depois. Não sei se vamos fazer em Portugal ou noutro sítio. Isso dependerá do enquadramento regulatório que existir. Sabemos que há vários países que estão a posicionar-se para criar regimes atrativos para este tipo de sistemas. Portugal ainda não tem um enquadramento regulatório para a energia eólica offshore, mas acreditamos que vai criá-lo, porque o potencial em Portugal é grande.

 

Tem recebido delegações de outros países para mostrar este protótipo?

Sim, várias delegações, algumas asiáticas. Na semana passada recebemos a visita da comissária europeia [Connie Hedegaard,responsável pela ação climática]. Tem gerado bastante interesse, tanto na comunidade científica, como na indústria.

 

Quanto tempo será necessário para o investimento ficar pago na fase comercial?

Quando estamos numa fase pré-comercial ou comercial estamos a falar de projetos que são suficientes rentáveis, projetos que vão ter uma rentabilidade em linha com a rentabilidade que a EDP fez noutros investimentos na área das renováveis. Caso contrário, não faremos esse investimento. Não lhe sei dizer qual vai ser a rentabilidade dos parques neste momento, mas vai ser em linha com aquilo que temos.

 

Quando é que considera que Portugal terá capacidade para exportar este material e know-how?

Eu acho que aí está uma grande oportunidade e acho que até é uma das principais razões porque Portugal devia, mais cedo que tarde, criar um enquadramento regulatório para este tipo de coisas. Hoje em dia, no projeto de demonstração, cerca de 70 por cento dos fornecedores são empresas nacionais e cerca de 50 por cento do valor total do projeto foi feito em Portugal. (...)

Pode ver imagens da Windfloat captadas pela RTP aqui.


PER


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